terça-feira, 1 de outubro de 2013

O inferno de Verdun - Eles não passarão!



Von Falkenhayn acertou na previsão. A noticia de que Verdun estava ameaçada tocou os brios da França. O Alto Comando não tardou em enviar reforços para deter a qualquer preço as investidas dos alemães. O general Phillipe Pétain, que heroicamente comandou a resistência nos primeiros tempos, deu lugar depois ao general Robert Nivelle, arauto da doutrina do l´attaque à outrance, e ao seu subalterno o general Charles Mangin, apelidado de Le boucher, “O carniceiro”. Milhares de soldados franceses foram transportados pela chamada Voie Sacrée, a Via Sagrada, única estrada que ligava Verdun ao restante do país. Por ela foram despachados em 12 mil veículos, 50 mil toneladas de alimentos e 90 mil homens por semana ( no total 2 milhões de franceses se fizeram presentes na batalha, o equivalente a 70% do exército). Os alemães tiveram o cuidado de jamais bombardeá-la porque a intenção deles era fazer com que os franceses, trafegando desimpedidos por ela, se amontoassem dentro da cidadela para melhor serem massacrados. Para a França inteira, entretanto, impedir que Verdun caísse virou questão de honra nacional, não importando os custos disto.


Com o prolongar dos meses as coisas começaram a tornar-se cada vez mais difíceis para a infantaria alemã. Além das dificuldades de terem que deslocar-se sobre um terreno similar à superfície lunar, escavado por um bombardeio inaudito, a resistência francesa tornou-se sobre-humana. O poilu, o soldado raso francês, determinou-se a cumprir com a promessa do general Nivelle: Ils ne passeront pas! Eles não passarão! Para manterem-nos nas posições , a substituição das tropas era constante. O general Phillipe Pétain e o general Charles Nivelle, adotando o Sistème Noria, tiveram o cuidado de não deixar os seus soldados exaurirem-se nas trincheiras e nos fortes. De tanto em tanto, todos eram removidos e novos regimentos chegavam para assumirem-lhes os postos no fronte. Com tal rotatividade acredita-se que 2 milhões de franceses de algum modo passaram por Verdun. Combates memoráveis foram travados na Colina 304 e no tétrico monte Le Mort-Homme, o sinistro Morte-do-Homem, onde os rivais enfrentaram-se à baionetadas e lutas de mão. Apenas vinte dias depois do primeiro assalto alemão - dilacerados pela artilharia e pelas metralhadoras - as baixas chegaram ao espantoso número de 89 mil franceses e 82 mil alemães mortos, feridos ou desaparecidos. Algo como 8.550 homens perdidos por dia! Foi então que Verdun virou um grande atoleiro com milhares de cadáveres insepultos – o Inferno de Verdun, como os solados passaram a dizer.




No dia 6 de março de 1916, os alemães retomaram o ímpeto ofensivo, conseguindo ocupar, até o meio de abril, mais quatro fortes (Harcourt, Malancourt, Thiaumont e Vaux). A esta altura Verdun transformara-se numa “guerra pela guerra” porque os objetivos originais de fazer sangrar o exército francês “até a última gota de sangue”, como dissera von Falkenhayn, tinham sido totalmente desvirtuados. Outros elementos, psicológicos, motivados pelo ódio patriótico e pelo recalque de antigas quizilas franco-germânicas, entraram em ação. Sem metas estratégicas definidas, a batalha de Verdun virou um cabo-de-força entre alemães e franceses, uma disputa irracional que abateu inutilmente milhares de soldados. Num confronto onde a artilharia foi a rainha das armas, a tragédia de Verdun ficou conhecida como a que produziu o maior número de vítimas por metro quadrado do que qualquer outra batalha da história. Por isso os alemães chamaram-na de Fleischwolf, o moedor de carnes. Calcula-se que foram jogados sobre os estreitos campos de Verdun 43 milhões de petardos, e que somente contra os fortins os alemães lançaram de uma vez só 110 mil granadas de gás venenoso.








O horror sem tréguas sofrido pelos soldados no matadouro de Verdun foi indescritível. Milhares de homens, os melhores exemplares de duas das mais civilizadas e cultas sociedades até então conhecidas, foram reduzidos durante meses a fio, em meio à chuva, à lama, à neve, ao gelo e depois ao sol, à uma vida subumana. Como se fossem trogloditas, vergando os corpos como caramujos, passaram intermináveis horas e dias dentro de buracos e de túneis, de fossos e de cavernas, todas elas imundas, fétidas, invadidas por um repulsivo mau cheiro, assustados pelo silvo dos morteiros e pelo atordoante impacto das bombas e estilhaços que, como chuva pesada, não paravam de cair sobre eles. Enlouquecidos pelo troar incessante das canhonadas, ainda assistiam diariamente os estragos que as metralhas e os lança-chamas faziam sobre os corpos mutilados dos seus camaradas. Os bombardeios enterrava e desenterravam os cadáveres. Os miasmas e odores nauseabundos exalados por todos os lados eram tamanhos que os soldados que freqüentavam as latrinas do Forte Vaux usavam máscaras antigazes. Um número considerável de cartas enviadas pelos combatentes à retaguarda, para os seus familiares, amigos ou amadas, compuseram o que pode-se designar como a “ literatura de Verdun”, coletada por pesquisadores e historiadores da correspondência vinda das trincheiras.. 
Exemplos:
- comentário de um oficial alemão: “ o número de desertores aumentou, os soldados do fronte começaram a ficar insensíveis, apáticos, de tanto verem os corpos sem cabeças, sem pernas, atingidos no estômago, trespassados na testa, com buracos no peito, dificilmente reconhecidos, pálidos e sujos, em meio a lama marrom amarelada que cobre inteiramente o campo de batalha.”
- de um outro soldado alemão: - “ numa única palavra, Verdun. Numerosos rapazes, ainda jovens e cheios de esperanças, deixaram suas vidas aqui – os restos mortais deles estão se decompondo em algum lugar entre as trincheiras, em sepulturas de massa , nos cemitérios..” 
- de um soldado francês: - “ durante os meses de verão os vermes e as moscas assolam os corpos e o fedor, aquele horrível cheiro... quando nós cavamos trincheiras colocamos dentes de alho nas narinas.” 
- um outro testemunho: - “ lama, calor, sede, sujeira, ratos, o doce cheiro dos corpos, o repugnante cheiro dos excrementos e o terrível medo... sinto que temos que ir para ao ataque, e isso justo quando ninguém tem mais vigor”.
- um soldado francês descreve um bombardeamento: - “ Quando você ouve o sibilo cada vez mais próximo todo o seu corpo encolhe-se preventivamente preparando-se para a enorme explosão. Cada nova explosão é um novo ataque, uma nova fadiga, uma nova aflição. Mesmo os nervos daqueles feitos de aço não são capazes de suportar com tal tipo de pressão. O momento vem quando o sangue explode na sua cabeça, a febre ferve no interior do seu corpo e os nervos, entorpecidos pelo cansaço, não são capazes de reagir a mais nada. É como se você estivesse preso a um poste, amarrado por um homem com um martelo...É difícil até rezar para Deus..” 
- um oficial francês observa: - “ Primeiro passam companhias de esqueletos, por vezes comandadas por um oficial ferido, apoiado numa muleta. Todos marcham ou melhor movem-se para frente em ziguezague como drogados. Seus rostos aparentam como se eles tivessem gritando alguma coisa.”

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