quinta-feira, 13 de novembro de 2014

BRIGADEIRO ANTÔNIO DE SAMPAIO - UM SERTANEJO, GRANDE SOLDADO DO BRASIL





 
Cel Cláudio Moreira Bento
Presidente da FAHIMTB




Comemora-se, dia 24 de Maio, mais um aniversário da batalha de Tuiuti, contaremos para os leitores e para os soldados do Exército Brasileiro e, em especial aos da Arma de Infantaria, a história de um dos maiores soldados do Brasil – O Brigadeiro Antônio de Sampaio – ligado a Tuiuti.

De origem humilde, igual à grande maioria dos soldados brasileiros, iniciada sua vida militar como simples soldado, escalou os postos da carreira militar e, após sua morte gloriosa, recebeu o honroso título de “O bravo dos bravos”, além do de “Patrono da Infantaria Brasileira” – A rainha do Campo de Batalha, num atestado das profundas raízes populares e democráticas do Exército Brasileiro que proporciona oportunidades aos mais capazes e valorosos, independente de suas origens.

SERTANEJO DO CEARÁ

Nasceu nosso herói na Fazenda Vítor, Município de Tamboril, no atual Ceará, em 24 de maio de 1810, data que assinalaria, 56 anos depois, sua entrada para a glória militar eterna, por sua excepcional atuação na Batalha de Tuiuti – a maior batalha campal da América do Sul – mas esta é outra história.

Sertanejo nascido numa região frequentemente assolada pelas secas, Sampaio cresceu sem instrução, num meio de ignorância e pobreza.

Neste meio ambiente, Sampaio formou seu caráter, e dentro da escala de falsos valores locais, tornou-se um líder, por reconhecerem nele um “cabra macho” provado em diversas disputas com valentões das redondezas, além de inspirado cantador popular.

Era audacioso e possuidor de coragem física e moral invulgar. Tornou-se, por outro lado, um destacado lidador nas tarefas sertanejas e era um fascinado pela atividade da pecuária - a vaquejada.

AMOR NA JUVENTUDE

Apaixona-se, perdidamente, por uma bela camponesa de 13 anos, de nome Maria Veras, no que é correspondido, mas ela é filha de uma família fidalga inimiga da sua – fato comum no sertão nordestino de então.

Sampaio, apaixonado, insiste no namoro, ao ponto do pai de Maria Veras, “cabra birrento”, contratar sua morte, a ser executada por bandoleiros que infestavam o sertão.
Perseguido e com o coração partido – Sampaio, para fugir à morte certa sob os punhais assassinos de bandoleiros, vai para Fortaleza, à procura de trabalho onde pudesse acumular economias, para um dia retornar ao seu querido Tamboril e desposar a eleita de seu coração.

ABRAÇA A CARREIRA MILITAR

Em Fortaleza é atraído, irresistivelmente, pela carreira das armas e apresenta-se voluntário no 22º Batalhão de Caçadores de Linha com a idade de 20 anos, em 17 de julho de 1830.

Tem início uma das mais belas carreiras do Exército Imperial do Brasil.

Por seu valor excepcional, caracterizado por uma coragem física e moral invulgar, aliada a liderança inconteste sobre seus pares, é elevado, aos seis meses de caserna, a graduação de furriel – equivalente a 3º Sargento.

Em 4 de abril de 1832 recebeu seu batismo de fogo nas ruas de Icó e Fortaleza.

Nesta ocasião, dizem alguns historiadores, o Furriel Sampaio teve a inspirada ideia de armar seus soldados, que pacificavam índios rebelados, com escudos de proteção contra flechas e lanças. Por esta razão, é considerado por alguns, como um dos precursores da Infantaria Blindada Brasileira.

DECEPÇÃO DE AMOR 

Desfrutando, nesta altura, conceito entre seus superiores, recebe uma licença para voltar a seu querido Tamboril, atraído por irresistível amor à sertaneja Maria Veras.

Em Tamboril continua a oposição familiar a seu namoro. Sampaio encontra-se secretamente com sua amada e dela obtém o juramento de permanecer na casa de um amigo, até a sua maioridade, pois tinha somente 16 anos.

Em reconhecimento à sua destacada atuação na Cabanada, foi efetivado no posto de Alferes em 20 de maio de 1839, com a idade de 29 anos.

Orgulhoso com o oficialato, após nove anos de praça e, com bastantes economias, obteve permissão para ir a Tamboril cumprir seu juramento de casamento com sua eleita Maria Veras, e dar combate aos bandoleiros que infestavam a região.

Ao chegar a Tamboril com o coração transbordante de felicidade, tem conhecimento da terrível notícia. Maria Veras desposara um desconhecido, pouco após sua última visita a Tamboril.

Esta cruel decepção de amor, amargaria o coração do jovem soldado durante os próximos 10 anos, até que conhecesse a gaúcha Júlia dos Santos Miranda, que serviu, segundo suas próprias palavras, como uma paixão refletida para acalmar uma louca paixão, ou de compensar um grande amor por um amor maior.

NA PACIFICAÇÃO DO MARANHÃO 

Após esta amarga decepção segue para o Maranhão para tomar parte da pacificação da revolta da Balaiada. Na luta, torna-se dos mais constantes, destacados e incansáveis oficiais da Infantaria. O bravo Alferes Sampaio comandou, pessoalmente, pelotões e companhias, em 36 ações de combate.

Torna-se o terror dos bandoleiros, aos quais não dá quartel, talvez recordando-se daqueles que tanto prejudicaram sua vida em Tamboril, impondo a lei injusta e irracional do mais forte.

Sua atuação foi decisiva para a vitória da Pacificação do Maranhão, por neutralizar ou dispersar a malta de bandidos que infestavam e infelicitavam o Maranhão, o Piauí e até o Ceará, sem outros objetivos que não o crime.

Aonde se homiziasse um bando Sampaio, como sertanejo excepcional, ia buscá-los e neutralizá-los.

Seu desassombro em combate, enfrentando o inimigo de peito aberto, sem ser atingido em inumeráveis combates, deu origem à lenda entre seus comandados e bandoleiros, de que Sampaio, em virtude de uma oração que trazia junto ao peito, tinha o corpo fechado a balas e baionetas. Este misticismo ajudava a inspirar seus soldados a segui-lo em empreitadas arriscadíssimas, ao mesmo tempo que infundia temor aos seus adversários.

Em 11 de setembro de 1843, com idade de 33 anos, foi promovido a Capitão como recompensa pelos assinalados serviços na pacificação do Maranhão.

Nos intervalos das lutas aprendeu com facilidades a ler e escrever. Decorridos 14 anos, aquele sertanejo inculto e façanhudo de Tamboril – agora alfabetizado – torna-se Ajudante de Ordens do Comandante de Armas do Ceará e, após, do próprio Governador da Província.

DEIXA PARA SEMPRE O CEARÁ 

Em 6 de novembro de 1844, o Capitão Sampaio deixa para sempre o Ceará, que amava tanto para, a distância, cicatrizar seu coração ferido por uma grande desilusão de amor, embora amasse profundamente sua terra natal, conforme declarou ao Sargento Oliveira, seu confidente: “Eu amo muito o Ceará, com especialidade o Tamboril meu berço natal; e morrerei com ele estampado nas ideias e gravado no coração.”

NO RIO GRANDE DO SUL

Sampaio chega ao Rio Grande do Sul em princípios do ano de 1845, e pouco antes assiste em Bagé a assinatura da Paz de Ponche Verde – que teve lugar em terras hoje pertencentes à família do Presidente Emílio Garrastazu Médici, e que pôs um fim há dez anos de Revolução Farroupilha.

A seguir, é mandado para a atual cidade de Canguçu no comando de 150 homens para garantir o cumprimento dos termos da Paz de Ponche Verde.

CASAMENTO COM UMA GAÚCHA

Em 1849, com 39 anos de idade contraiu casamento muito provávelmente em Canguçu, onde se encontrava estacionado fazia mais de três anos. Estes 19 anos de solteiro talvez expliquem a sua excepcional dedicação ao Exército Imperial – como uma forma de sublimar sua paixão frustrada.

EM PERNAMBUCO OUTRA VEZ

Após haver fugido do Recife onde estivera preso injustamente como furriel, o Capitão Sampaio retorna pela segunda vez em 1850, para auxiliar e pacificar a Praieira.

Passou quase todo o mês de julho em operações na mata sul de Pernambuco.

É presumível que tenha nesta ocasião passado em Garanhuns.

No mês seguinte, após permanecer uma quinzena no Recife reembarcou com destino ao Rio Grande do Sul, onde seria aproveitado como instrutor por sua excepcional capacidade de profissional, traduzida por rara inteligência e grande conhecimento da natureza física e espiritual do infante brasileiro, de cujo convívio partilharia, diuturnamente, durante 20 nos, assistindo-o com seus sábios conselhos e justiça.

Sampaio, segundo depoimentos de contemporâneos, usava mais o exemplo do que as palavras, exercendo sobre seus soldados e oficiais aquele magnetismo, aquela ação catalizadora e hipnótica, que caracterizava os grandes e autênticos líderes de combates, além de inspirar uma confiança ilimitada por sua integridade, probidade e coragem moral e física.

Era o chefe e o pai de seus soldados e partilhava das alegrias e tristezas de todos, com autenticidade e não para fazer tipo. De origem humilde, igual a de seus soldados, considerava-se e era considerado o companheiro mais velho e mais experimentado.

NO RIO GRANDE DO SUL 

Nomeado Major, marcha para participar da Guerra Contra Rosas e Oribe, que tem seu epílogo em Monte Caseros, onde comandou, pessoalmente, disputados combates à baioneta.

A partir deste momento, todas as suas promoções passaram a ser por merecimento e o peito “do sertanejo” de Tamboril passou a cobrir-se de condecorações e comendas.

NA CORTE IMPERIAL

Sua fama de guerreiro intrépido chegou até aos ouvidos do Imperador, que o convoca para o Comando do Corpo Policial da Corte, cargo que desempenhou por sete meses, correspondendo à confiança do Governo.

EM BAGÉ COM OSORIO E MALLET 

Sampaio pediu para retornar ao Rio Grande do Sul onde contraíra matrimônio e havia se ambientado por completo, nos hábitos e costumes dessa Província, cuja psicologia de seus filhos muito assemelha-se a dos filhos do sertão nordestino.

Retornando a Bagé, foi comandante de Batalhão e de Brigada de Infantaria e, aí, conviveria com Osorio e Mallet.

Atentados constantes a propriedades de brasileiros no Uruguai, levaram o Império a intervir naquela República.

Nesta ação, da qual participaram com destaque e em íntima cooperação Osorio, Sampaio e Mallet, Paissandu foi submetida a enérgico bombardeio durante 52 horas consecutivas.

Na manhã de 2 de novembro, a Brigada de Sampaio avança, sob nutrido fogo inimigo, que se assemelhava a um chuveiro de balas. A infantaria de Sampaio toma casa por casa em disputados combates corpo a corpo, à baioneta, e os sitiados se entricheiraram na Praça Matriz, protegidos por canhões.

Neutralizada por Mallet a artilharia inimiga – quando Sampaio estava prestes a vencer a última resistência – viu tremular no ar a bandeira da rendição. Em 22 de fevereiro, a Brigada Sampaio entrou triunfalmente em Montevidéu, composta de três batalhões de infantes veteranos, ágeis e decididos, no corpo a corpo a baioneta e, em sua grande maioria, bravos sertanejos do Nordeste.

Os assinalados serviços de Sampaio a frente de seus bravos infantes em Paissandu, valeram-lhe o posto de Brigadeiro.

NA GUERRA DO PARAGUAI 





Com a eclosão da Guerra do Paraguai, Sampaio é nomeado inspetor da Arma de Infantaria, composta de recrutas do Nordeste, principalmente.

Sampaio recebe toda a autoridade e autonomia para plasmar esta infantaria. Em outubro de 1865, vamos encontrar Sampaio no comando da 3ª Divisão de Infantaria, composta de 4.400 bravos infantes.

Deixando à sua esteira um rosário de glórias, esta Divisão marcha até Tuiuti – local onde passaria à história como Divisão Encouraçada, e o sertanejo de Tamboril como o “Bravo dos Bravos”.

O SERTANEJO INTRÉPIDO EM TUIUTI 

Em 24 de maio de 1860, trava-se a maior batalha da América do Sul.

O Exército Aliado, em terreno estreito, é atacado, de surpresa pelo inimigo. O bravo Sampaio está na vanguarda com seus bravos cearenses do 26º Batalhão de Infantaria, que recebe todo o impacto do morteiro fogo inimigo.

Sampaio, a cavalo, exorta pelo exemplo seus bravos à resistência – o fracasso ou a vitória dependia da bravura de seus infantes da Divisão Encouraçada.

Vinte cargas de Cavalaria inimiga são lançadas sobre a Artilharia de Mallet e sobre a Divisão Sampaio, mas eles resistem bravamente e os cavalarianos inimigos mortos formam trincheiras naturais.

O flanco esquerdo da Divisão Sampaio é atacado, de surpresa por nove batalhões inimigos, mas a Divisão Encouraçada reage e não cede um milímetro – era a resistência a todo o custo. O Sertanejo Sampaio desdobra-se em três, cinco, mil, e acode a cavalo em todos os cantos.

Quatro de suas montarias caem varadas por lanças, baionetas ou tiros, mas Sampaio com bravura e destreza, esquiva-se dos golpes fatais - embora exposto a grandes perigos.

ENTRADA PARA A GLÓRIA MILITAR 

Teria procedência a lenda de que possuía o corpo fechado?

Quando desmontado, e empenhado no corpo a corpo, Sampaio é atingido na face por uma bala traiçoeira. Neste momento chega um emissário de Osório, para encorajar nosso herói a redobrar a resistência – porque o sucesso da batalha dependia do esforço derradeiro de Sampaio e seus bravos infantes.

Ferido pela segunda vez, à bala, e coberto de sangue, suor e poeira, o leão de Tamboril diz para o emissário: “Diga ao Marechal que estamos cumprindo o nosso dever – mas como já perdi muito sangue, seria conveniente que me mandasse substituir”. Mal acabava de pronunciar estas palavras é atingido por outro “balaço” que põe por terra, de joelhos, aquele bravo após mais de quatro horas de resistência tenaz e feroz.

Ajoelhado e desfalecendo ainda balbucia: “Diga ao Marechal que este é o terceiro ferimento...” E tomba ao solo ferido de morte, entre os corpos de centenas de bravos infantes feridos e mortos, da Divisão Encouraçada – fator decisivo da vitória aliada e que brindou a Pátria Brasileira com uma eterna glória.

Recolhido nos braços de seus soldados – presos de incontida emoção – em meio a grande consternação geral – “O Bravo dos Bravos” é retirado do campo de batalha.

MORTE DO BRAVO DOS BRAVOS 

Embora ferido mortalmente, aquele “sertanejo excepcional”, resiste a morte durante 43 dias e expira a bordo do navio Eponina que o transportava a Buenos Aires.

Por todas estas razões é que este bravo nordestino foi escolhido como o Patrono da Arma de Infantaria, por indicação de outro grande nordestino – provado na paz e na guerra, o então Major Humberto de Alencar Castello Branco.

Após 27 anos de ausência do Ceará, Sampaio retorna através de seus restos mortais – que atualmente encontram-se em mausoléu defronte o CPOR em Fortaleza. O SERTANEJO “FORTE DOS FORTES” Euclides da Cunha referiu que “o sertanejo é antes de tudo um forte”, e Sampaio, com muita propriedade, encarnou “o sertanejo forte dos fortes”, moral e fisicamente, além de ter sido “o brasileiro Bravo dos Bravos” na Guerra do Paraguai.

Sua vida de excepcional soldado que, de origem humilde, ascendeu ao quadro de oficiais-generais do Exército Imperial, merece ser assunto de cinema, como a vida do grande Marechal gaúcho Manoel Luiz Osório.

HOMENAGENS DEVIDAS A ESTE BRAVO NORDESTINO 

Para que sua memória não seja olvidada pelas gerações futuras e a pátria lhe tribute eternamente as honras a que faz jus, deveria ser erigido o Parque Histórico Brigadeiro Antônio Sampaio, dedicado a seu culto – à semelhança dos erigidos em memória de Osório – em Osório no Rio Grande do Sul e ao Duque de Caxias em Duque de Caxias no Estado do Rio.

Estranho, que a semelhança das cidades que Osório e Duque de Caxias nomes dados em homenagem a seus grandes filhos a cidade de Tamboril não tenha recebido o nome de Brigadeiro Sampaio. Caxias, Osório e Sampaio são três vidas dedicadas à pátria e suas atuações foram couraças que ampararam este gigante sul-americano em seus primeiros passos – e preservaram sua liberdade e integridade

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