segunda-feira, 27 de abril de 2015

Netas relembram histórias de militar brasileiro que lutou na Primeira Guerra Mundial


Maria Luiza Ferraz e Vera Maria Potyguara revisitam memórias do avô, o general Potyguara
Maria Luiza Ferraz e Vera Maria Potyguara revisitam memórias do avô, o general Potyguara Foto: Paulo Mumia

"Sou pequeno, mas tenho a coragem dos grandes", disparou Tertuliano de Albuquerque Potyguara, então com 15 anos, em conversa com o marechal Floriano Peixoto, que pouco tempo depois se tornaria o segundo presidente do Brasil. Saído de Sobral, no sertão cearense, onde nascera em abril de 1873, o menino havia percorrido sozinho mais de dois mil quilômetros rumo ao Rio para realizar o sonho de ingressar no Exército. Comovido, Floriano acatou o pedido do rapazinho imberbe, de quem viraria amigo pessoal (apesar da bravata, Tertuliano jamais atingiu mais do que 1,63m de altura). Começou assim a trajetória do general Potyguara, um herói desconhecido da história do país e da Primeira Guerra Mundial.
Com brilho nos olhos, Vera Maria Potyguara, de 70 anos, relembra essa e outras passagens marcantes relacionadas ao avô, morto quando ela tinha apenas 14, em setembro de 1957. O orgulho está estampado na decoração do apartamento em Copacabana, mesmo bairro onde Tertuliano passaria os últimos anos de sua vida. Numa parede, em molduras bem conservadas, as sete medalhas obtidas pelo general em seus anos de serviço e um documento do governo francês que lhe concede uma palma de bronze. No canto da sala, um anjo, também em bronze, que a ele pertenceu.
— Me arrependo de não ter perguntado mais coisa quando eu era criança. Ele quase não falava sobre esses assuntos, e a gente não insistia — diz Vera, com os olhos marejados, ao lado da prima Maria Luiza Ferraz (bisneta de Tertuliano).
Vera e Maria Luiza com as recordações de Tertuliano
Vera e Maria Luiza com as recordações de Tertuliano Foto: Paulo Mumia / Extra
Mas a memória do militar foi preservada mesmo assim. "Legalista ferrenho" — na descrição da própria Maria Luiza, de 65 anos —, ele teve participação enérgica na Revolta da Vacina, no Rio, e na Guerra do Contestado, na fronteira entre Paraná e Santa Catarina (dois dos maiores levantes populares do período). A atuação destacada credenciou Tertuliano a ser enviado para a França, em setembro de 1918, com o intuito de representar o Brasil na Primeira Guerra.
Quis o destino que o garoto do interior do país acabasse tomando parte em um dos principais momentos do conflito armado. Ferido na Batalha de Monte Saint-Quentin, que vitimou mais de cinco mil soldados, Tertuliano não parou de lutar até que a vitória estivesse consolidada. A valentia lhe rendeu a palma exibida na casa de Vera, uma das maiores honrarias oferecidas pelo Exército francês - a primeira de muitas homenagens e promoções que receberia por conta de "atos de bravura".
Recuperado e de novo no Brasil, Tertualiano voltaria a combater compatriotas insurgentes, desta vez na Revolta Paulista de 1924. Apesar do sucesso na contenção do levante, acabou vítima de um atentado a bomba, que lhe arrancou todo o antebraço esquerdo. Daí em diante, o militar sisudo, que repetia a seriedade no trato com a família, seria visto para sempre com a manga da farda ou do terno branco, seu predileto, metodicamente enterrada no bolso da calça.

Uma das condecorações de Tertuliano
Uma das condecorações de Tertuliano Foto: Paulo Mumia / Extra

— Não lembro de ver meu avô sorrindo, nem em foto. Andava sempre muito sério e arrumado, impecável mesmo. E era metódico: almoçava quase todo dia à mesma hora e no mesmo lugar. Não era do tipo carinhoso, é verdade, mas nunca deixou de estar presente para a família — recorda Vera.
A mutilação interrompeu a trajetória no Exército, de onde se afastaria em definitivo alguns anos mais tarde, já com a patente de general assegurada. Os serviços ao país, contudo, não haviam terminado: Potyguara virou deputado federal pelo Ceará, reelegendo-se várias vezes. "Sou pobre, mas entendo que, acima de tudo, devemos ao povo o máximo respeito", discursou em certa ocasião.
— Ele morreu como viveu: sem bens, com seus princípios e sua integridade intactos. Foi parlamentar e não se corrompeu. Só recebia o soldo do Exército, mais nada. Que político de hoje pode dizer algo assim? — questiona Maria Luiza.
O amor pelo Exército passou para a prole, e seus três filhos homens também entraram para a corporação — a filha só não o fez porque, na época, não era permitido. Hoje, cem anos depois do confronto que o tornou célebre entre os militares, um tataraneto de Tertuliano, recém-ingressado na Escola Naval, fez questão de retomar o sobrenome outrora perdido na passagem de gerações. Mesmo sem ter chegado perto de conhecer o parente ilustre, transformou-se no aspirante Potyguara. Melhor assim: a linhagem está garantida.

Carta de congratulações a Tertuliano
Carta de congratulações a Tertuliano Foto: Paulo Mumia / Extra


Medalhas que Tertuliano recebeu na carreira militar
Texto Luã Marinatto

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