sexta-feira, 7 de outubro de 2016

FOTOS DA PRISÃO DE ANTÔNIO SILVINO

Por:  


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A prisão de Antônio Silvio em 1914
O aprisionamento de Lampião não se me afigura impossível. Nada importa diga ele que prefere a morte. Antônio Silvino também o dizia, mas, apenas se viu baleado, foi o primeiro em fazer questão de mansamente se entregar à justiça. Restabelecido ulteriormente, voltaram-lhe no presídio os ímpetos brutais, como na manhã em que, entre descomposturas do calão mais vil, sacudiu um pão na cara de um desembargador.
Antonio Silvino preso.
Antônio Silvino preso.
Quando a captura de Lampião parece a tanta gente sonho irrealizável, vem a propósito recordar como se deu a de seu terrível predecessor.
O que desgraçou Antônio Silvino foi a perseguição sem tréguas que lhe moveu uma de suas vítimas mais humildes. Bem diz o povo que “não há inimigo pequeno” e que “mutuca é que tira boi do mato”…
Sargento Alvino, promovido a alferes após a captura de Antonio Silvino
Sargento Alvino, promovido a alferes após a captura de Antonio Silvino
José Alvino Correia de Queiroz era obscuro comerciante no sertão de Pernambuco, quando Antônio Silvino lhe saqueou o pequeno estabelecimento. Reduzido à miséria, jurou vingar-se e entrou a polícia daquele Estado. Acreditaram nos seus propósitos e fizeram-no sargento.
Inteirado de que Silvino transitaria por certa faixa do município de Taquaritinga, o Sargento Alvino buscou informações de João Vicente e Joaquim Pedro, moradores naquelas paragens. Ambos negaram a pés juntos ter qualquer conhecimento a respeito. Mas, tão jeitosamente o miliciano conduziu as investigações, que a esposa de João Vicente o orientou:
– Quando o Sr. chegar à casa de nosso vizinho, o Joaquim Pedro, e encontrar as mulheres torrando galinhas ou fazendo comedoria de sobra, pode apertar o pessoal que o “capitão” Antônio Silvino está escondido perto, no mato…
O oficial Theophanes Ferraz Torres, comandante da volante que capturou Silvino. Valente e destemido, seria um grande perseguidor de Lampião.
O oficial Theophanes Ferraz Torres, comandante da volante que capturou Silvino. Valente e destemido, seria um grande perseguidor de Lampião.
No dia esperado, 27 de novembro de 1914, os policiais, sob o comando do Alferes Teófanes Torres e do Sargento José Alvino, estavam no local referido, de nome Lagoa Laje.
Assim que penetrou na residência de Joaquim Pedro, o Sargento Alvino se encaminhou diretamente para a cozinha, atrás de cuja porta se lhe deparou pendurada uma banda de ovelha. E viu chegar desconfiado, pelo quintal, um rapazola com um tabuleiro à cabeça, cheio de tigelas, colheres e pratos. Interrogado, o recém-vindo explicou, titubeante, que havia ido deixar comida a uns “trabalhadores”, num roçado.
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Concomitantemente, o Alferes Teófanes submetia Joaquim Pedro a interrogatório, e este negava que soubesse do paradeiro de Silvino.
Aparece o sargento e, depois de falar na ovelha morta e de mostrar o tabuleiro com os restos de comida, pede permissão para forçar o velho sertanejo a não continuar mentindo. Ato contínuo, tranca-lhe, numa alcova, a mulher e os filhos e ordena que os soldados desembainhem os sabres.
Nos antigos jornais e revista por mim pesquisados, esta foto consta como sendo a força policial que lutou e capturou Antonio Silvino, mas muitos pesquisadores apontam como sendo o próprio bando de Antonio Silvino.
Nos antigos jornais e revista por mim pesquisados, esta foto consta como sendo a força policial que lutou e capturou Antonio Silvino, mas muitos pesquisadores apontam como sendo o próprio bando de Antonio Silvino.
Nesse momento, mais nervosa, uma filha do ameaçado pede, da alcova:
– Meu pai, por caridade, descubra logo!
Joaquim Pedro roga que não lhe batam e justifica-se, alegando que logo não disse a verdade por temer a vingança de Silvino, no caso de a polícia o não prender ou matar. E confessa que o celerado está escondido não longe dali.
Eram cinco horas da tarde e urgia assaltar os cangaceiros, antes que a noite sobreviesse.
Também nos jornais de época esta mulher foi apresentada como Antônia de Arruda, amante de Silvino.
Também nos jornais de época esta mulher foi apresentada como Antônia de Arruda, amante de Silvino.
Sob as ameaças de ser liquidado, se desse o menor sinal aos bandidos, Joaquim Pedro vai mostrar o esconderijo deles. Com todas as precauções imagináveis, a tropa se aproxima da malta criminosa.
Antônio Silvino estava deitado numa pedra, sobre a qual se debruçava copada oiticica. Perto, divertiam-se alguns de seus cabras, a jogar um sete-e-meio. Ao ouvir a primeira descarga, Silvino gritou, motejante:
Ferimentos de Antonio Silvino após a sua captura.
Ferimentos de Antônio Silvino após a sua captura.
– Espera aí, rapaziada! Deixem, ao menos, os menino acabar esta mão!
Mas o fogo irrompeu violento e sem intermitências, dos dois lados.
Com o cair da noite, o tiroteio deixou de ser correspondido. O Alferes Teófanes e o Sargento Alvino acreditaram que Silvino tivesse fugido. Suspeitando, todavia, que ele se quisesse vingar de Joaquim Pedro, foram entrincheirar-se na casa deste.
Antonio Silvino já com o uniforme da prisão.
Antônio Silvino já com o uniforme da prisão.
Coisa bem diversa se passava. Silvino fora atingido por uma bala nas espáduas e o seu companheiro Joaquim Moura tivera quebrada uma perna. Os demais cangaceiros se embrenharam, desorientados, na caatinga, favorecidos pelo negrume da noite.
Estando a perder muito sangue, Silvino convidou Joaquim Moura a se entregarem, mas este repelira o convite e, depois de dizer que macaco do Governo não tinha o gosto de botar-lhe as mãos em riba, ele vivo, suicidou-se com um tiro na cabeça.
Outra foto do oficial Ferraz.
Outra foto do oficial Ferraz.
Impressionado ainda mais com o trágico fim do último assecla que lhe restava, Silvino despojou-se das armas e arrastou-se para a casa da mulher que ele ignorava tivesse sido quem o denunciara. O marido dela, João Vicente, a estava censurando por sua leviandade, persuadido de que Silvino, sabedor da denúncia, lhes não perdoaria.
De repente, batem à porta. Quando, de fora, uma voz anuncia que quem bate é Antônio Silvino, João Vicente encomenda a alma a Deus, convicto de que vai morrer. É sua mulher quem se afoita a atender ao chamamento.
Aqui outra imagem do sargento Alvino.
Aqui outra imagem do sargento Alvino.
Ao se abrir a porta, aparece, à luz da lamparina, o vulto do grande salteador. Quase desfalecido e com as vestes rubras de sangue, Silvino está escorado no portal.
– Capitão, que horror é este?
– Mataram-me… arqueja aquele que, acovardado, começava a expiar crimes sem conta.
Conduzido a uma rede, ele pede que chamem a polícia. Vai alguém a Taquaritinga, mas não encontra lá os soldados. Na confusão em que todos se viam, ninguém a princípio se apercebeu de que os policiais poderiam estar pernoitando na fazenda de Joaquim Pedro. À mulher de João Vicente ocorre agora essa possibilidade. Despacham para ali o portador. Quando este bate à porta de Joaquim Pedro, os soldados aperram as armas, crentes de que é Silvino quem chega. Aberta a muito custo uma janela, o mensageiro dá contas de sua incumbência: vem avisar que Antônio Silvino, sozinho, desarmado e gravemente ferido, está em casa de João Vicente e quer entregar-se à prisão.
Expectativa para a chegada do famoso bandoleiro nordestino na Casa de Detenção de Recife.
Expectativa para a chegada do famoso bandoleiro nordestino na Casa de Detenção de Recife.
O Alferes Teófanes suspeita que se trate duma cilada e opina que se aguarde o raiar do dia. Tanto insiste, porém, o Sargento Alvino que, afinal, o seu comandante se dispõe a ir ver Silvino. Ainda assim, o recadista vai seguro pelos cós e advertido de que receberá uma punhalada, ao primeiro tiro com que a tropa seja surpreendida.
Cercada com cautelas a morada de João Vicente, houve grande alegria, quando se patenteou aos olhos de seus perseguidores a mísera situação daquele que se gabava de que, embora sem saber ler, governava todo o sertão! O Sargento Alvino parecia o mais contente. Exigiu que se não fizesse o menor mal a Antônio Silvino e saiu, pelos matos, a cortar umas folhas de quixabeira para lhe lavar as feridas.
Fora destronado o Átila bronco que, durante dois decênios, apavorara a gente matuta do meio-norte e assoalhava não ser passarinho que morasse entre grades… Por trinta anos ia se fechar atrás dele o portão da Penitenciária de Recife!
Multidão a frente da Estação Central do Recife na chegada do famoso cangaceiro.
Multidão a frente da Estação Central do Recife na chegada do famoso cangaceiro.
Foi à tenacidade do Sargento Alvino, à sua argúcia e vontade firme de vingança que se deveu a prisão de Antônio Silvino. Forçoso é, porém, reconhecer que colaborou inestimavelmente nisso a indiscrição duma mulher.
Acontecerá o mesmo, algum dia, a Lampião? Até na ruína dos cangaceiros terá aplicabilidade o cherchez la femme.

Texto acima é do Cearense Leonardo Mota, inserido no seu livro “No tempo de Lampião” e publicado pela Of. Industrial Gráfica, do Rio de Janeiro, em 1931. Esta reprodução é da segunda edição, de 1967. Leonado Mota era cearense da cidade de Pedra Branca, nasceu em 1891 e faleceu em 1948. Estudou a fundo o sertão nordestino, onde descreveu vários aspectos da região em obras memoráveis. 
Antes de Lampião, Antônio Silvino era o cangaceiro mais famoso e seu apelido mais conhecido foi “Rifle de Ouro”. Nascido no dia 2 de dezembro de 1875, em Afogados da Ingazeira, Manoel Batista de Morais entrou para a história como Antonio Silvino. Durante 16 anos, driblou a polícia, praticou saques e assassinou inimigos, mas era tratado pelos poetas populares como um “herói” por respeitar as famílias. A invencibilidade de Silvino terminou no dia 27 de novembro de 1914, quando ocorreu o seu último tiroteio com a polícia. Atingido no pulmão direito, conseguiu se refugiar na casa de um amigo e disse que ia se entregar. Da cadeia de Taquaritinga seguiu, dentro de uma rede, até a estação ferroviária de Caruaru, onde um trem especial da Great Western o levou para o Recife. Uma multidão o aguardava na Casa de Detenção, atual Casa da Cultura. Antonio Silvino tornou-se o detento número 1.122, condenado a 239 anos e oito meses de prisão. Em 4 de fevereiro de 1937, depois de vinte e três anos, dois meses e 18 dias de reclusão, foi indultado pelo presidente Getúlio Vargas. O ex-rei do cangaço morreu em 30 de julho de 1944, em Campina Grande, na casa de uma prima.

https://tokdehistoria.com.br/2013/11/13/fotos-da-prisao-de-antonio-silvino/
 

sábado, 9 de julho de 2016

Missão Médica Militar em França na Guerra de 1918




Missão Médica Militar em França na Guerra de 1918

Mário Kroeff, conta sua história Faz precisamente 50 anos [em 16 de agosto de 1968], largava da Praça Mauá, rumo à Europa conflagrada, um transporte francês, lotado com uma leva de brasileiros. Era a Missão Médica Militar em França.

(...)

Mas companheiros! Os espectadores gostariam de ouvir de nós ou de mim, como fiel intérprete, resposta a uma pergunta que, decerto, logo formularam, consigo mesmo, ao trazerem este cenáculo, sua solidariedade.

Quais foram os ideais que animaram os brasileiros a se alistarem naquela expedição? Seria a solicitude em cooperar com o nosso Governo, no cumprimento de seus compromissos internacionais? A simpatia especial pela França, armada por todos nós? O desejo de servir nos moldes da Cruz Vermelha, que nem repara no distintivo dos feridos que caem? A oportunidade para se aperfeiçoar profissionalmente na técnica cirúrgica, dada a abundância de material a ser posto em nossas mãos ou simples espírito de aventura, na esperança de conhecer novos mundos?

Nada indicava que essa viagem fosse correr sem algum perigo e livre das surpresas de uma guerra. Precisamente um mês antes, em junho de 1918, os alemães haviam desfechado grande ofensiva. Falava-se, novamente, em evacuar Paris, alvejada de tempo em tempo pelos célebres canhões de longo alcance (os grosses Bertas). Creio, que em todos tenha influído, de tudo um pouco. Fato é que o alistamento se fez espontâneo e o entusiasmo surgiu por toda a parte.

Decerto, as razões de ordem internacional foram, as mais ponderáveis, na decisão dos missionários, alguns, talvez até sem se aperceberem. Era a ideia de pátria, similar àquela que já tinha inspirado nosso presidente, Wenceslau Braz, meses antes, quando lhe tocou a vez de se empenhar pelo País, com declaração de guerra, malgrado ser estadista de aparência calma e pacífica, malgrado o Brasil ser tradicionalmente adepto de uma política de concórdia geral, entre todos os povos.

Nosso Governo viu nos médicos, seu melhor elemento para colaborar na causa dos Aliados, dando demonstração leal e positiva. E na guerra, o Brasil entrou pelo emblema da medicina, de nossa medicina, sempre sublime na intenção de salvar e socorrer o ser humano, qualquer que ele seja.

Na verdade, havia implicações, de um modo ou de outro, por parte das nações, de aquém e de além mar, a ponto de se digladiarem, numa verdadeira conflagração. Julgavam-se ameaçados, os princípios da justiça que regulam as fronteiras dos países e formam o estatuto da civilização. Imperava por toda parte contra os invasores, um movimento de solidariedade humana. E o Brasil não podia ficar indiferente, assistindo de longe ao sacrifício dos outros povos, no combate à agressão para manter-se intacta, a ordenação harmônica de todas as nações. Exatamente por volta de junho de 1918, a sorte do mundo estava pendente das sangrentas batalhas que a França sustentava, com suas reservas, à beira do Marne, já nas portas de Paris, contra um poderoso inimigo, dominado por ideia de conquista total.

O país amigo, admirado de todos os brasileiros, no seu esforço máximo, tinha rasgos de bravura, definidos naquela sua exortação: on ne passe pas et on les aura [“não passarão e os conquistaremos”, lema alusivo à sangrenta batalha de Verdun, 1916].

Até no homem comum, havia entusiasmo em poder participar. Daí, senhores, o sentido internacional de nossa posição, tomada pela Pátria e por alguns de seus filhos, dispostos a cooperar.

Outro motivo colateral assentou em base médico profissional. Atender pela clínica e pela cirurgia larga manu [em grande escala], na zona de guerra, visando o aperfeiçoamento, para poder servir ainda melhor, lá e alhures. Esse característico predominava na maioria.

Havia nos integrantes, especial admiração pela escola médica, que a França representava, no mundo de então. Aos jovens, fascinava a cirurgia dos grandes golpes, rápidos e ousados, estancando o sangramento pela compressão dos retalhos. Paris, formando celebridades clínicas e cirúrgicas, era, na época, a Meca da Medicina, onde os nossos mestres iam, de tempo em tempo, nas viagens de estudo, renovar a sua cultura.

E certamente, no amor a essa arte, que os livros pouco ensinam e só se aprende no vivo, foi que alguns dos missionários encontraram justa razão para ir lutar no estrangeiro, em troca dos riscos, desses que a guerra sempre traz consigo, nos seus imprevistos.

A expedição foi chefiada por Nabuco de Gouveia, homem de representação na classe e merecedor da confiança do Ministro da Guerra, General Caetano de Faria. Deputado, cirurgião, Professor de Ginecologia e Diretor do Hospital da Gambôa. Comissionado no posto de Coronel do Exército. A Missão era composta de 10 Diretores de Serviço, servindo na categoria de tenente-coronel; 20 chefes de enfermaria, no grau de capitão; 29 médicos na classe de 1º Tenente; 8 auxiliares como 2º Tenente e 15 doutorandos na mesma categoria. Farmácia, intendência e secretaria. Incorporadas, uma delegação do corpo de saúde do Exército, com 5 representantes e outra da Marinha de Guerra, com 6 oficiais, onde eu me achava incluído, como 1º Tenente-Médico da Armada. Seguiu também um contingente de 31 soldados.

Em conclusão, 131 combatentes totalizavam a falange brasileira, mandada para se incorporar aos exércitos aliados, na frente francesa.

Toda ela foi organizada na base da competência, sem influência política. Tive ocasião de ouvir do então Ministro da Marinha, Almirante Alexandrino de Alencar, a seguinte afirmação: “Por parte da Armada, só quero gente boa nessa expedição”.

Os nossos homens pisaram em terra francesa, a 24 de setembro de 1918, pelo porto de Marselha, depois de uma viagem acidentada, cheia de privações, que contarei daqui a pouco.

Uma vez em Paris, foram todos entregues ao alto comando francês que os distribuiu pelas Províncias, a fim de imediatamente prestarem serviço contra uma epidemia de gripe, que dizimava a população civil, enfraquecia a linha de frente e prejudicava a ação da retaguarda. Serviram, a contento. Do Ministério da Saúde Pública, receberam elogios e distinta condecoração: Reconaissance Française.

Enquanto uns eram assim espalhados pelo interior e cooperavam na saúde pública em geral, outros trabalhavam como chefe da Missão, na Montagem do Hospital Brasileiro, remodelando o prédio de um antigo convento de Jesuítas, que existia na rue Vaugirard. A instalação foi feita em mês e meio, de trabalho acelerado. Ai é que Nabuco Gouveia deu prova de sua capacidade de organização. Seus auxiliares diretos receberam a legião de honra: Tenentes-coronéis Benedito Montenegro, Eduardo Borges da Costa, Paulo Parreiras Horta e Jorge de Toledo Dodsworth. Nabuco já era legionário. O estabelecimento, classificado logo como de primeira classe, em condições de receber feridos, ficou nivelado ao hospital americano de Neuilly, no dizer dos próprios franceses, General Fevrier, inspetor sanitário da Região. Depois que o General Roger, Chefe do Serviço de Saúde, na Praça de Paris, nos fez uma visita, ‘as 6 horas da manhã e declarou que não pensava encontrar um hospital tão bem montado, desse dia em diante, só nos foram, de fato, enviados, os casos tidos como grandes feridos. Ali dirigiam a seção de cirurgia os Coronéis Benedito Montenegro, Mauricio Gudin, Borges da Costa e Torreão Roxo, auxiliados pelos mais jovens: Ernâni de Faria Alves, Alfredo Monteiro, Roberto Freire e Pedro Paulo Paes de Carvalho. Este último já se achava na Europa, trabalhando no Hospital Franco-Brasileiro, mantido pela Colônia, à rue de La Pompe e dirigido pelo grande cirurgião Paulo do Rio Branco, filho do nosso chanceler.

Terminada a guerra, foi extinta a Missão, em fevereiro de 1919. O Hospital, daí em diante, ficou sob a direção exclusiva dos médicos-titulares do Exército e da Marinha sob a chefia do Coronel-médico Rodrigo de Araújo Aragão Bulcão. Que já se achava na Europa. Nesse grupo estive eu. Ficamos subordinados ao General Napoleão Aché, chefe de uma outra Comissão de Estudos de Operações de Guerra. Sob esse novo regime, fiquei encarregado de uma enfermaria e tive oportunidade de ser o auxiliar na primeira operação realizada então no Hospital e executada pelo major-médico, João Afonso de Souza Ferreira, já participante da Comissão anterior. Nome grato a esta Casa [a Academia Brasileira de Medicina Militar], por ter pertencido à tríade dos fundadores.

Seis meses depois, o nosso Governo fez presente da instalação hospitalar, com todo aquele precioso material, à Faculdade de Medicina de Paris. E em nosso hospital foi montada a melhor clínica cirúrgica da Escola, confiada a seu mais afamado professor, Pierre Duval.

Quem hoje subir as encostas da rue Vaugirard, há de ler, no bronze, em grande fachada, o nome Hôpital Brésilien. Atestado vivo, do esforço de alguns brasileiros, respondendo pelo País.

Agora (...) quero referir os nomes das localidades no interior da França, a cujo serviço estiveram os meus compatriotas. Hão de lembrar, decerto, passagens da vivência com os habitantes, o valor de sua atuação médica, e, ipso facto, recordar a gratidão manifestada, naquele tempo, pelos beneficiados que encontraram em nós, legítimos representantes da medição francesa.

(...)

Pela ordem: Tenentes-Coronéis:

Servindo em Tourcoing, Norte da França – Benedito Montenegro.

Hoje, aqui, patrono dos missionários, como foi esta tarde perante o Ministro do Exército, General Lira Tavares. Figura de exceção na medicina mundial. Basta referir que exercendo a cirurgia e operando estômagos, conseguiu atingir a maior soma de gastrectomias, já realizadas por um homem, em todo o mundo (mais de 6.000). Alegra-nos vê-lo, em forma, fazendo discursos nesta idade.

Besançon – Jorge de Toledo Dodsworth, pela hierarquia, nosso vice-patrono.

Agora os Capitães:

Marselha – Ernâni de Faria Alves.

Saint-Brieux – João Augusto de Mattos Pimenta

Paris – Joaquim Vidal Leite Ribeiro (como ajudante-de-ordens do chefe)

Marselha – Eugêncio Décourt

Paris – Maurilio de Mello (nos preparativos do Hospital)

Nice - Olímpio Chaves (servindo no Hospital dos afetados pelos gases).

Primeiros-Tenentes:

Rennes – Alfredo de Moraes Coutinho

Nevers – José Bonifácio da Costa

Montpellier – José Camilo da Costa e Silva

Angulême – Hélio Franco Fernandes

Marselha – Leonídio Ribeiro

Tours sur Loire – Mário Kroeff (encarregado dos prisioneiros alemães, hospitalizados em barracas)

Paris – Antônio Ayres de Mendonça

Poitier – Luiz Alves Braga

Nantes – Pedro Paulo Paes de Carvalho (substituindo ai, na direção do Hospital, o Professor Chévrier, que só assim pode requerer suas férias atrasadas).

Segundos-Tenentes:

Carcassonne – Álvaro Berardinelli

Montpellier – Bento Costa Júnior

Chalon – João Peixoto de Amarante

Tours – João Paes Leme de Monlevade

Nice – Viriato Dutra

Doutorandos (categoria de segundos-tenentes):

Pau – Álvaro Cumplido de Sant´Anna

Clermont-Ferrand – Luiz Adelmo Lodi

Farbres – Ary de Lima

Bordéus – Antônio Pereira Nunes

La Roche sur Lyon – Cícero Cruz Alvez

Nimes – Mário Coutinho (era simples tenente, hoje general)

Nantes – Oscar Pereira Brito.

Vê-se, assim, que os médicos da Missão estiveram presentes em toda a França. E deixo de citar aqui, nesta relação. As localidades atendidas pelos companheiros já falecidos.

Alóisio Neivas, como Secretário da Missão – 1º Tenente – sempre pronto e cavalheiro.

Farmácia – Plínio Ribeiro de Castro e Carlos de Castro

Na Intendência – 2º Tenente, Anysio Oscar da Mota.

Quem não conhece o caricaturista Fritz? Merece referência especial. Sua presença aqui, faz lembrar passagens humorísticas da vida de bordo. Durante a viagem, surgiu um jornaleco – o Torpedo – editado clandestinamente por um grupo de índole rebelde e vibrante de mocidade. Tinha pouco mais de um palmo, em duas folhas. O Torpedo foi fundado com o objetivo de ser ali, o órgão da crítica e oposição, a um regime severo, ilhado dentro de um barco.

Redatores, o jornalista Antônio Marques Pinheiro e o Tenente Alfredo de Moraes Coutinho. Este era autor de artigos de fundo, sempre ilustrados, com expressivas charges, caricaturando a figura do chefe supremo. Sofreu logo os efeitos da repressão e foi empastelado por ordem superior. Nele, o nosso Fritz já revelava o traço marcante de sua arte, sempre inspirada em mansa boêmia. Procurei trazer um exemplar para exibi-lo hoje aqui. Oferecido, como foi, à Biblioteca Nacional, está não quis procurá-lo, em sua coleção de obras raras. Foi pena. Seria uma reminiscência a mais, nesta oportunidade.

Uma palavra sobre os soldados

Jovens, sorteados para o serviço militar, alistaram-se espontaneamente na ideia de guardas as portas do hospital brasileiro ou outra qualquer posição que lhes fosse confiada. Alguns, voluntários, com 17 anos, como este que hoje aqui está, respondendo por um nome já consagrado na literatura, Machado Florence, escritor e romancistas.

Daquelas 31 praças, a esta altura da vida, somente 7 responderam ao toque de reunir.

O contingente que lá na França estava em forma, marcou sob o Arco do Triunfo, depois do armistício, no défilé de la Victorie, desfraldando nossa bandeira, ombro a ombro, com soldados de outras pátrias. Eles, na confraternização geral, aprenderam a cantar a Madelon, canção militar que distraía o soldado francês nas pausas da linha de frente.

(...)

Agora, uma nota importante.

Refere-se à equipe de Montpellier. Um de seus membros, o Tenente-Coronel Paulo Parreiras Horta, teve oportunidade de estudar ali uma doença desconhecida. Atacava os soldados sob a forma diftérica, obstruindo o faringe com falsas membranas. Por meio de culturas e exames microscópicos, demonstrou a verdadeira origem e indicou o tratamento respectivo. Deu-lhe o nome de micose pseudo-diftérica, devido a um cogumelo do tipo furasiosis. Ainda mais. Além dessa nova entidade nosológica, apresentou à Sociedade médico-cirúrgica de Montpellier, outro trabalho original, estudado na França: “Disenteria devido ao treponema euginata. Novo método de coloração de treponemas”. Baseado nesta pesquisa, o Dr. William Gibet fez uma tese, apresentada à Faculdade de Medicina de Paris. Ai está, mais um serviço prestado pela missão médica, não só à França, como à ciência médica em geral. Esses estudos foram comunicados aqui no Brasil, à Academia Nacional de Medicina.

Soldados que responderam ao toque de reunir:

Antônio Benedito Machado Florence

Diaulas Junqueira de Aquino Pádua

Luiz Richard

Raimundo Nonato Moreira (anspeçada)

Décio Passos

Clóvis Tocantins Barbosa (cabo)

Antônio Simões de Carvalho (cabo)

Mário Paes de Barros Filho.

Cumpre-me agora mostrar a face triste da missão.

Para chegar até aquelas longínquas paragens no interior da França, os brasileiros foram obrigados a percorrer ásperos caminhos. Basta referir que a travessia dos mares, Atlântico e Mediterrâneo, levou 36 dias para uns e 64 para outros, que ficaram para trás, nos hospitais da África. Foi cheia de privações, riscos de vida, doenças que apareceram, casos de morte e suicídio.

Para alguns, essa viagem foi marcada com sangue, dor, tristeza e luto. Quatro dos nossos perderam a vida. Estes fatos devem ser arrolados, para quando se quiser escrever a história da Missão Médica Militar, e acrescentar no livro pátrio, mais uma de suas páginas. É bom que todos saibam e os pósteros tenham conhecimento, até onde foi o sacrifício de alguns que saíram espontaneamente do País para levar à guerra de 1918, uma contribuição médico-hospitalar. Aproveito esta oração para prestar meu depoimento pessoal. Comigo, o destino foi cruel, criando-me situações dolorosas, verdadeiramente tétricas, certas vezes.

Ao sair de Dakar, mal o barco se fizera ao largo, foi ele de repente, infestado por um mal desconhecido, revelando logo o seu caráter epidêmico. Sentiram-se atacados de forma grave todos os membros da nossa comitiva, os tripulantes e os recrutas senegaleses, que vinham, amontoados nos porões, desde o porto anterior. Em pouco, o navio já se tornara hospital flutuante, lotado de gente, sem diagnóstico, e sem tratamento. Dias sucessivos se prolongaram, entregues todos ao Deus dará, e confiados às defesas naturais e às reservas nutritivas, que o organismo sempre acumula, em seus próprios tecidos. A mim, coube passar as horas mais trágicas da vida. Ardia em febre, ao abandono, sem água, no escuro, sem ter alguém que viesse até o camarote, fazer sequer a necessária limpeza, dias após dias, ou melhor, noites sucessivas, porque para mim as vigílias eram intermináveis. Ao passar pelas Canárias, permanente esconderijo do submerso inimigo, o nosso comboio, sob ameaça grave, viu-se obrigado a se refugira no porto Etienne, deserta enseada na Costa Marroquina, ao norte do Senegal. Zona tórrida, sem um ramo verde, onde o sol, refletindo seus raios, em cômoros de areia, trazia ao nosso confinado camarote, um calor sudorífero. Era a segunda ameaça de submarino, igual àquela outra que nos fez mudar de rota, antes de chegar a Baia de Freetown, na Serra Leoa. Andavam, talvez, os inimigos interessados em poder humilhar com torpedos à vista, aquela especial carga humana, representante de uma cultura e de uma opinião. Depois dessa segunda corrida e pausa forçada, prosseguimos viagem.

Ai, já éramos quatro, na mesma cabina, porque a senhora de um dos companheiros veio se agregar, no delírio da febre. Durou semana e meia a fase aguda do nosso sofrimento. Desde 7 de setembro, ao sair de Dakar, até o dia 16, quando um emissário, já convalescente, desceu em Gibraltar para nos trazer os líquidos e remédios. Esses recursos estavam avidamente desejados pelos doentes de bordo, alguns já ressequidos, como eu, pela febre e pela dieta forçada. Mas, a tragédia não termina ai. Meu companheiro de beliche de cima tenta o suicídio. Procura inutilmente se atirar pela vigia, subindo para isso no divã onde dormia, gravemente doente, outro camarada. Retrocede para recorrer a uma gilette, cortando os pulsos e salpicando de sangue todos nós, como ele, já meio perturbados. Forma nervosa da gripe espanhola.

Ante meu fraco protesto, replicou: - “vocês não sabem que estou sentindo. Não posso mais.”

Efetivamente, sobe ao convés.

Ao clarear do dia, alguém viu um vulto correr em direção à amurada. Quando deram pela falta, não mais foi encontrado. No camarote, os vestígios de sangue ficaram por algum tempo, como triste recordação de um companheiro, Tenente-Farmacéutico da Armada – José Brasil de Souza Coutinho.

Numa daquelas noites tenebrosas, eu, doente, me torturava ainda mais, ao escutar ali do meu camarote, perto da proa, a tragédia dos sengaleses que morrendo aos magotes, eram atirados, ao cemitério das águas. A cerimônia fazia-se acompanhar de um sapateado ululante, segundo o ritual de certas tribos africanas que costumam dançar em torno do cadáver, antes de entregá-lo à sua morado final. Para cúmulo da situação, eis que, de repente, soa a sirene.

Era o sinal de alarme. Criou-se o salve-se quem puder. As mulheres caíam pelos corredores, perdidas na escuridão, chorando atrás dos maridos. Eu, não tive ânimo para levantar, subir as escadas e procurar lá no convés o meu bote salva-vidas. Considerei-me perdido. Em rápido exame de consciência, confesso que naquele instante, encontrei minha maior culpa no pesar que causaria à minha mãe. Conformado, já aceitara a solução do torpedo para logo dar cabo àquela situação angustiante. Aguardei por momentos um possível estrondo, projetado sobre o costado do barco. Puxei de baixo do beliche o salva-vida e amarrei seus cordões ao pulso, esperando, ali mesmo deitado, os acasos do destino. Passado algum tempo, enquanto perdurava a tétrica algazarra de gente perdida pelas escadaria, eis que aparece um amigo – Leonídio Ribeiro – ainda febril, tateando de porta em porta: - Mário, não levanta. Não é submarino. O nevoeiro está muito forte e o comboio ameaça abalroar”. Esse alarme fez piorar muita gente, dando complicações de pneumonia. No Mediterrâneo, o navio teve ordem de atracar em Oran, ao norte da Argélia, a fim de deixar ali hospitalizados os nossos doentes mais graves. Nesse porto, em 18 de setembro, desembarcaram todos os membros da Missão. Os convalescentes hospedaram-se nos hotéis e os mais graves foram diretamente para o hospital militar. O vapor “La Plata” devia sofrer desinfecção geral. Quanto a mim, fiquei esquecido no fundo de um camarote. Passei parte da notie a respirar ambiente sufocante. Altas horas, reagi, e atraído pelo ruído de um ventilador, encontrei no camarote ao lado, um colega – João Coimbra – nas mesmas condições. Meio cambaleantes, braço a braço, subimos ao tombadilho, em busca de respiração melhor. No dia seguinte, removido em maca, fiquei no cais por algumas horas, sujeito à curiosidade de gente esquisita, usando indumentária beduína, com turbantes à cabeça. Depreendi que lamentavam a sorte daquele militar, ali estendido e destinado a ficar para trás, em sua caminhada. No trajeto do hospital, morre meu companheiro de ambulância, tenente comissário do Exército, cujo nome não me foi dado conhecer. Depois de uma golfada de sangue, pende do beliche superior, um braço amortecido. Ficou balançando pela estrada, a cada solavanco. No hospital, ao dar entrada na enfermaria, tive a reconfortável sensação do mais salutar de todos os remédios: vasta tigela de água fresca, para matar a sede prolongada.

Deram-me logo, também, uma taça de champanhe, medicação preconizada pela antiga medicina para reanimar os pulmonares, na fase aguda. Apenas alojado, entre gente estranha, caras de árabes e anamitas, percebo uma voz, chorando na sala ao lado. Era a Senhora Scyla Teixeira que havia perdido o marido naquela hora, encerando assim sua viagem de núpcias. Em seguira, vieram buscar para exame de laboratório, amostra de minha expectoração, cor de tijolo. Fiquei na expectativa de uma transferência para algum local de isolamento, apropriado aos tuberculosos. Só muito mais tarde, é que recebo a notícia de que não se confirmara aquela suspeita indesejável. Removeram-me, ao invés, para o salão nobre do hospital, improvisado em dormitório, onde já se achavam em tratamento os coronéis Borges da Costa, Jorge de Toledo Dodsworth e Torreão Roxo e o tenente da Armada Luiz Castelo Branco. Fomos todos, muito bem tratados. O contingente baixado em Oran por doença grave, era composto de 16 pessoas. Alguns ficaram em terra africana, no derradeiro repouso. Antes de partir, estivemos no cemitério. Confesso que ali de parte de fraco, ante as palavras de emoção, dirigidas aos mortos pelo companheiro Luiz Felipe de Souza Lobo. Pouco depois, prosseguimos viagem, a bordo de um vapor de segunda, rumo ao porto de Marselha, onde desembarcamos. De trem, chegamos a Paris e logo fomos distribuídos, como os outros, pelo interior da França, sem perda de tempo.

Agora, já que se contou a parte boa e a face triste, na história da Missão, uma pergunta final pode ser formulada. Que resultou de útil na ação dos brasileiros? A essa indagação, já tivera oportunidade de responder o Tenente-Coronel Maurício de Medeiros, em discurso pronunciado, ao ensejo de uma de nossas festas anteriores de confraternização: “Ficou na França que tanto amamos, um documento de nossa capacidade de organização hospitalar, no magnífico estabelecimento que lá deixamos. Ficou por todas as províncias daquele país o testemunho da competência de nossos médicos. E ficou, sobretudo, a prova de que o Brasil, quando necessário, sabe cumprir o seu dever”. A mesma pergunta também respondeu Paulo Parreiras Horta, numa entrevista, ao Diário da Noite, edição de 22 de maio de 1942: - “Direi apenas que os brasileiros cumpriram os eu dever e alguns perderam a vida pelo Brasil e é para estes que se dirige primeiro, minha recordação comovida – Scyla Teixeira, Jose Brasil de Souza Coutinho, Paulo de Melo Andrade e Octávio Gomes do Paço.”

O subsecretário de Estado do Serviço de Saúde Militar – Louis Mourier, dirigiu em fevereiro de 1919, pelo documento 6.793 C 4, ao Ministro das Relações Exteriores da França, a seguinte exposição, em resposta a uma consulta, sobre a contribuição, oferecida pelos brasileiros:

“A Missão Médica desempenhou um esforço notável para que o Hospital que ela organizou pudesse estar em condições de participar utilmente no tratamento dos feridos, tombados no curso das últimas operações. Efetivamente, esse estabelecimento foi instalado com extrema rapidez, a tempo de assegurar aos militares em tratamento, o máximo conforto e possibilidades de cura. Pode assim receber um número elevado de doentes. Conta atualmente com 260 leitos ocupados”. E assim termina: “Le personel médical et chirurgical de la Mission s´est montré, tout a fait, à la hauteur de as tache” [o pessoal médico e cirúrgico da missão se mostrou, em todos os momentos, a altura de sua tarefa].

Fomos visitados pelo Conselho Superior da Faculdade de Medicina de Paris, tendo à frente o Decano, professor Roger, em companhia de notabilidades médicas, como os professores Hartmann, Widal, Chauffard, Piere Marie, Jeansselme, Maurice de Fleury, Gilbert, Benzançon, Couvelaire, Jean-baptirste Faure. Percorrido o hospital, exprimiram sua admiração pela obra realizada, considerando modelar o novo hospital.

Epitácio Pessoa e Pandiá Calógeras, presidente e membroda Delegação Brasileira à Conferência de Paz, dirigiram telegrama em 16 de fevereiro de 1919, ao Ministro do Exterior do Brasil, afirmando:

“O hospital que tem galhardamente sustentado o nome do Brasil está hoje, plenamente acreditado, contribuindo poderosamente para criar forte simpatia pelo nosso País, coisa que ele muito precisa, neste momento de espinhoso trabalho na Conferência de Paz”.

A nós, os médicos da Missão, valeu de muito essa viagem. Serviu para conhecer, de perto, o valor da França no seu esforço de guerra e sentimento de pátria, mantido por sua gente; para dar ensejo de avaliarem o padrão da assistência médica, prestada a qualquer combatente, até mesmo em seus longínquos hospitais, de que tivemos prova, quando alguns tombaram doentes na Argélia; oportunidade para combater ao lado de um país aliado, grande amigo do Brasil, tido como o mais bravo de todos; para poder presenciar de visu a excelência da medicina francesa, escola que já se havia incutido na formação científico-profissional de inúmeros brasileiros. A mim, serviu para criação de um laço de cordialidade, através das “Palmas Acadêmicas”, honrosa condecoração, capaz de orgulhar qualquer cidadão brasileiro; serviu-me também para trazer gratas recordações de uma temporada de ano e meio, passada em Paris, na flor da idade, em bela convivência com a juventude e os grandes mestres da cirurgia francesa.

Serviu-me ainda para tirar uma visão panorâmica, através de seus monumentos obras de arte e tradição milenar que transparece a cada passo na Capital do Mundo.

Mas, senhores, esta solenidade não estaria completa, sentimentalmente, se uma evocação aos mortos não fosse feita.

Nesta noite inesquecível, cheia de luz, flores e sorrisos, onde já resplandeceu a inteligência humana, nesse entrevero de palavras, que me precederam, cabe homenagem especial, póstuma, aos desaparecidos prestada pelos sobreviventes, por aqueles que a natureza quis conservar, a título de privilégio. Vivos, somos hoje apenas 37, entre os 151 que embarcaram, cheios de entusiasmo e de esperança, naquela longínqua manhã de agosto, deixando no cais uma multidão que acenava lenços úmidos de lágrimas.

Eu gostaria de poder citar nominalmente a relação dos que já faleceram, mas sou premido pelo tempo. Com eles, andamos pelo mundo, num trato amável, levando no coração o mesmo ideal e enfrentando, na coragem, os reveses do caminho.

E, para lembrar a amizade de alguns e devotar reverência aos que souberem honrar o nome de seu País peço licença para interromper minha singela oração, pelo prazo de um minuto.

Como se eles estivessem ouvindo, ao longe, o toque do clarim chamando ao silêncio para sentirem as homenagens desta noite.

Aos mortos, de pé, senhores.

Minhas senhoras e meus senhores.

Ao terminar, com honroso encargo de falar em nome dos meus companheiros da Missão Médica Militar, devo expressar o nosso máximo reconhecimento, do real significado, desta memorável solenidade, como uma especial consagração, que somente a Academia Brasileira de Medicina Militar tem autoridade de outorgar.

Muito obrigado.

Fonte deste artigo: Discurso do Prof. Mário Kroeff, publicado em “O hospital”, fev. de 1969. V.75 n.2




sexta-feira, 20 de maio de 2016

Cruz de Bravura - FAB - Segunda Guerra Mundial



Instituída em 10 de abril de 1945 pelo Decreto-Lei Nº 7.454, a "Cruz de Bravura" é concedida aos militares da ativa e da reserva da FAB, os quais tenham se distinguido por excepcionais atos de bravura em campanha. A "Cruz de Bravura" pode ser concedida tanto a tripulações de aeronaves como ao pessoal de terra.
A cada novo ato de bravura praticado pelo agraciado, que comporte direito a esta medalha, será colocada uma palma de bronze na fita.
A Cruz é em bronze oxidado, com a forma de uma cruz dos templários estilizada, sobreposta a uma coroa de louros, lavrada em relevo, que aparece entre os ramos; a Cruz é carregada a um disco filetado, com o emblema da FAB sobre o mesmo, em relevo, ao centro; no reverso do disco, a inscrição "Bravura" em relevo, ao topo do disco, e "FAB" .
A Cruz é ligada a uma barreta na forma de asas estilizadas, pendendo da fita em azul-rei, com dois frisos em vermelhão, ladeados por frisos em branco nas bordas laterais.
A Cruz foi concedida, até hoje, a apenas cinco agraciados; todos eles pilotos do 1º Grupo de Aviação de Caça e que perderam suas vidas em combate, na Itália, durante a IIª Guerra Mundial. Além da Cruz de Bravura, todos foram promovidos 'port-mortem'.

1º Ten. Av. John Richardson Cordeiro e Silva 
2º Ten. Av. Frederico Gustavo dos Santos
Cap. Av. João Maurício Campos de Medeiros
Cap. Av. Aurélio Viera Sampaio


Cap. Av. Luiz Lopes Dornelles

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